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Um Novo Mundo


Nossa realidade é moldada pela nossa forma de ver o mundo. E esse jeito de olhar, sentir e compreender não nasceu com a gente, ele é resultado de todo um processo de aprendizagem, desenvolvido dia a dia, desde o nosso nascimento.

E todo esse aprender é mais complexo do que parece. A própria realidade visível, que parece tão sólida, concreta e inquestionável é aprendida. Oliver Salks, médico neuro-antropólogo no seu livro “Um antropólogo em Marte”, a partir do estudo de um paciente, deficiente visual desde o nascimento, que recuperou a visão após os 40 anos de idade, mostra que aprendemos inclusive a ver.

Salks pergunta: alguém que recupera a visão, e que durante todo o decorrer da sua vida tocou em objetos redondos e quadrados, aprendendo assim a diferenciá-los, seria capaz de reconhecer esse objetos à distancia “apenas” vendo e não tocando?

Na realidade o paciente em questão, não foi capaz de reconhecer esses objetos e teve que reaprender a “ver” o mundo, usando agora a visão. E essa visão recém recuperada, não foi como imaginaríamos, uma benção, mas sim, um fato tremendamente desestruturador do equilíbrio desse paciente, que precisou se readaptar a uma nova realidade

Voltando ao nosso mundo e a forma pelo qual ele nos atinge. Se o mundo que vemos todos os dias é um mundo aprendido, os nossos pensamentos, as nossas crenças, nossos valores, isto é, o paradigma no qual construímos o nosso modelo de mundo está o tempo todo dando o tom e interferindo na nossa realidade. E qual é essa visão que ainda prevalece no mundo Ocidental?

* A visão do universo como um sistema mecânico formado por blocos elementares, herança da filosofia de Descartes e da ciência de Newton;
* A visão do corpo humano como uma máquina organizada em partes distintas, que sobrevive na medicina moderna;
* A visão da vida em sociedade como uma batalha competitiva pela existência, produto do darwinismo social;
* A crença num progresso material sem limites a ser alcançado através do crescimento econômico e tecnológico.

Sem desmerecer a ciência tradicional e o método analítico que deram ao homem moderno contribuições fantásticas, devemos avançar e aprender a ver o mundo de uma outra forma que responda às urgentes demandas atuais, precisamos de novos paradigmas.

Precisamos de uma nova forma de pensar - em termos de relações e inter-relações, encadeamento e contexto, de diversidades e nuances, assim como do fortalecimento dos valores associados a esse novo pensar.

Valores do novo paradigma como cooperação, ética, integração, associação, qualidade, se fazem cada vez mais necessários. Urge o envolvimento de cada um de nós em todo esse processo de mudança. O meio ambiente e a sociedade atual, assim nossos filhos, netos e os filhos dos filhos dos nossos filhos, agradecem!
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Publicado em: 01/12/1999. Última revisão: 29/02/2019
 COLABORADORES 
Maria Lucia Barciotte Maria Lucia Barciotte é Bióloga, Mestre em Biologia e Doutora em Saúde Pública e Ambiental pela Universidade de São Paulo.
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