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Preservando a natureza, reciclando vidas


Outro dia recebi um e-mail que funcionou como uma fantástica injeção de ânimo na minha teimosa confiança nas pessoas e na minha inabalável fé na capacidade humana de recuperação e criação.

Todos nós (mais de dez milhões) que moramos na cidade de São Paulo estamos cansados das notícias de corrupção, superfaturamento, cinismo, violência, sujeira, enfim lixos de todos os tipos que, dia após dia, criam condições de absoluta insalubridade para esta cidade, dita “locomotiva econômica deste país. Aqueles que não moram nesta capital, com certeza também são bombardeados diariamente com notícias deste calibre, veiculadas sempre com muito destaque pela mídia.

Mas será que os pessimistas e os derrotistas estão com a razão? Será que perdemos realmente a direção e impera de forma generalizada a lei do “salve-se quem puder”? Será que a prática de ações de cooperação, participação, trabalho e cidadania são impossíveis nos grandes centros urbanos?

Essa mensagem que eu recebi, assim como outros projetos que tenho a felicidade de acompanhar, desmente totalmente essas projeções desalentadoras. Vou me permitir transcrever alguns dados do Projeto “Reciclázaro”, alvo da mensagem citada.

Este projeto inovador é dirigido às pessoas com dependência química em álcool, crack, cocaína, maconha. Foca uma população de rua que, por conta do vício, perdeu os vínculos familiares, sociais e de empregabilidade.

Foi criado o projeto “Reciclázaro” pelo vigário da paróquia São João Maria Vianney, no bairro da Lapa, com a implantação de uma cooperativa de coleta de materiais recicláveis em fevereiro de 1999. Conta hoje com duas unidades, que retiram atualmente, uma média de 150 toneladas/mês de materiais recicláveis, do lixo da cidade de São Paulo.

O projeto envolve parceiros que levam estes materiais até um dos pontos de entrega voluntária: são 20 escolas, 28 empresas, 4 hospitais, 12 paróquias, 3 centro-espíritas, 4 igrejas protestantes, 18 condomínios, 1 movimento evangélico. Cerca de 70% deste material é comprado destas entidades, ajudando os seus projetos sociais. Para trabalhar, inicialmente, a pessoa é contratada como funcionária da cooperativa por 150,00. No decorrer do tempo, caso comprove aos companheiros esforço na recuperação do vício e no trabalho, passa a ser um cooperado, e o salário mensal, dependendo do lucro do mês, pode chegar a R$ 300,00. Cursos de artesanato, alfabetização, informática, tratamentos dentário e psicológico, além de cesta básica, também são oferecidos.

O tratamento de desintoxicação, na maioria da vezes é “extra-muros”, sem a internação em hospitais ou clínicas especializadas, com os pacientes recebendo, nesta fase, uma “bolsa-auxílio-tratamento”. Desta forma, com o apoio da comunidade e a partir de um trabalho digno, pessoas são tratadas com um custo muito menor do que o normalmente observado. Na rede hospitalar particular, um tratamento mensal deste tipo chega a custar R$ 1750,00 e pelo SUS/Sistema Unificado de Saúde, R$ 690,00, ficando o paciente, muitas vezes, de 3 a 9 meses internado.

Parece incrível que ajudando a reciclar o lixo da cidade de São Paulo, capaz de produzir cerca de 15 000 toneladas/dia (e onde além de outras omissões e desvios de conduta, o poder público ignora solenemente práticas ambientalmente mais adequadas para o tratamento deste lixo), pessoas consideradas à margem da sociedade, sejam capazes de reciclar suas vidas, mudando seus destinos e inspirando esperança em todos nós.
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Publicado em: 01/05/2000. Última revisão: 16/10/2018
 COLABORADORES 
Maria Lucia Barciotte Maria Lucia Barciotte é Bióloga, Mestre em Biologia e Doutora em Saúde Pública e Ambiental pela Universidade de São Paulo.
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