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Para que não percamos a nossa Humanidade


O Evangelho de João, o mais reflexivo dos narradores do Novo Testamento, cita uma frase do Mestre, quando do milagre da multiplicação dos pães:

”E quando já estavam fartos, disse Jesus aos seus discípulos:
Recolhei o que sobrou para que nada se perca “
(João, 6.12)

Essa mesma preocupação com o não desperdício observamos em Gandhi, quando ele nos diz:

“Cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário não haveria pobreza no mundo e ninguém sofreria de inanição”

Há alguns anos atrás vivi emocionada uma experiência com meu filho, na época com cerca de 7 anos:

Ele me contava que naquele dia havia aprendido na escola sobre ricos e pobres.
E eu perguntei:
Pedro, o que é ser rico ?
E ele respondeu:
Ora é ter muito dinheiro.
E o que é ser pobre:
Ora, mãe, é não ter dinheiro nenhum.
E eu insisto:
E nós, o que somos ?
Nós? Nós somos classe média.
E ai, Pedro, você não gostaria de ter muito dinheiro? Bastante mesmo, para comprar tudo o que você quisesse?
Eu não, ele me responde.
Mas por quê? Insisto.
Mãe, como eu posso querer ter tanto, se tem tanta gente que tem tão pouco. Se fosse mais dividido todo mundo teria um pouco e não faltaria pra ninguém.

“Para que nada se perca” de Cristo “Apenas o suficiente” para Gandhi, e uma divisão onde não faltasse pra ninguém na simples lógica de uma criança.

Onde foi que nos perdemos ? Se a natureza é pródiga em fazer muito com pouco por que insistimos em fazer pouco com muito ? Por que um país tão rico, tão próspero, empobrece a cada dia ? Por que a natureza tão generosa, não consegue suprir as mais básicas necessidades de tantos ? Por que tanto desperdícios, tanta insensatez ?

Eu os convido para um passeio diferente. Descubram onde fica o aterro sanitário, sumidouro ou lixão de sua cidade e façam uma visita. Levem seus filhos e depois respondam:

Existe sustentabilidade neste nosso padrão de consumo? Essas montanhas e montanhas de lixo não nos dizem respeito?

E olhem que estamos falando de um país que não é do primeiro mundo. E mesmo assim com tamanho desperdício e descompromisso com o futuro. Quem for me conte o que descobriu!

Mas para que essa nossa reflexão não nos encurrale num beco sem saída cito, finalmente, Camus:

"Já se disse que as grandes idéias vem ao mundo mansamente como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios e nações, no discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança.
Alguns dirão que tal esperança jaz numa nação; outros num homem. Eu creio ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalhos, diariamente negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada, de que cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos.”

E que 2000 nos ajude a construir saídas e a encontrar a entrada do equilíbrio e do compromisso com o futuro deste grande país e deste vasto mundo, essa imensa aldeia de pessoas, todas tão parecidas nos seus sofrimentos e alegrias e, às vezes, aparentemente, tão diferentes e tão distantes.
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Publicado em: 01/01/2000. Última revisão: 19/04/2018
 COLABORADORES 
Maria Lucia Barciotte Maria Lucia Barciotte é Bióloga, Mestre em Biologia e Doutora em Saúde Pública e Ambiental pela Universidade de São Paulo.
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