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As cognições e a sexualidade masculina

Publicado em: 01/10/2000. Última revisão: 09/08/2008

Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr.
Psicólogo e Terapeuta Sexual. Diretor Publicações do CEPCoS - Centro de Estudos e Pesquisas em Comportamento e Sexualidade, organização não governamental afiliada à Associação Mundial, de Sexologia - WAS; Diretor da SBRASH - Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana; autor dos livros "Psicologia e Sexualidade (Editora Medsi) e Objetos do Desejo (Iglu Editora).
Rua Traipu, 523- Perdizes - 01235-000 - São Paulo - SP - Brasil - Fone/fax (11) 3662-3139

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A sexualidade implica numa área privativa da vida das pessoas. E sendo assim, é mais possível termos o desenvolvimento de idéias e pensamentos construídos subjetivamente em maior proporção do que em situações públicas e em esferas da vida que dependem de instituições sociais determinando o conteúdo dos pensamentos e subjetividade.

Com a inexistência de processos de educação sexual formal, as formas de distorção de pensamentos tem um campo mais fértil para serem exercidas. A falta de institucionalização para a educação sexual força e permite que cada um de nós tenhamos idéias e conceitos próprios sobre as questões sexuais, muitas vezes essas idéias não correspondem à realidade.

As possibilidades de distorções de pensamento e cognições sexuais masculinas associadas a suas disfunções são muito freqüentes e entre as mais comuns podemos destacar:

Visão em túnel: perceber e pensar somente o que está de acordo com as próprias atitudes ou com o humor, ignorando outros aspectos, muitas vezes pode implicar em esquecer fatores importantes e valorizar apenas o aspecto em concordância consigo, mesmo que isso seja algo de pouca importância.
“tenho que dar prazer a minha parceira” – Esta é uma frase muito comum em consultórios de sexologia. A identidade masculina dita um olhar e um perceber dirigido a esta premissa, impedido que o homem possa desfrutar o prazer de estar em contato com outra pessoa.

Abstração seletiva: é uma variação da visão em túnel, implica na descontextualização de uma afirmação ou situação para chegar a uma interpretação incorreta.

O pensamento de que o sexo é composto apenas de penetração, faz com que os homens constantemente descontextualizem o momento sexual. O ato da penetração ganha importância e a obrigação da ereção passa a existir. A maioria dos homens não assimila o desejo como importante para a ereção ocorrer e por conseguinte a penetração. O desejo passa a ser considerado a partir do momento em que há ereção.

Inferência arbitrária: visão tendenciosa que permite afirmações e compreensões sem fundamentos.

A esposa, numa noite de calor, levanta-se para fechar janela; retorna à cama, deitando-se de costas sobre o marido. Este homem “sabe” que deverá ocorrer sexo na seqüência. O desespero surge. Não havia desejo sexual, mas a situação conduzia a sentir que deve fazer sexo.

Um homem com ejaculação precoce que tende a fazer sexo rapidamente, e com preliminares rápidas, busca perceber nas expressões sexuais da esposa “sinais” de que ela está excitada e próxima do orgasmo. Assim ele poderia ejacular, e assim o faz sem que ela esteja pronta para um orgasmo.

Generalização excessiva: afirmações absolutas que não tem fundamentos. É o ato de pensar excessivamente.

Uma forma comum de pensamento em homens com disfunção eretiva é a repetida frase de que não conseguirá fazer sexo, de que a ereção não será suficiente, de que perderá a ereção se a conseguir, de que uma vez perdida a ereção, não mais poderá obter outra num prazo de tempo satisfatório... Ao repetir estas frases constantemente, o homem passa a fazer delas a realidade e não atentar mais para o contato sexual.

Pensamento Polarizado: tudo ou nada; obrigação de escolha entre dois extremos.

Um exemplo muito sintomático foi o do cliente que usou esta expressão: “Quando estou com minha namorada, indo ao motel, para uma noite de sexo, ao chegarmos na portaria do motel, buscar o documento para entregar, toco meu pênis, se não estou em ereção, dou meia volta e desisto do sexo. Se não estou com ereção do que adianta ir para o motel?” “Se vou tocar nela, é para fazer sexo”

Amplificação: catastrofização dos eventos e situações. Sobrevalorização de aspectos ou circunstâncias.

Os homens supervalorizam o papel do pênis no relacionamento sexual. Um dos motivos que tornam mais difícil fazer com que os homens iniciem exercícios de dessensibilização sistemática in vivo, é o pensamento de que para estar nu com a parceria sexual na cama precisa estar preparado para o sexo, ou seja, ter ereção. O pensamento fica focalizado na ereção e não se espalha para as sensações de prazer a serem obtidas no contato sexual. Ao focalizar a atenção no pênis que não está rígido, o homem tende a considerar que este evento é a pior coisa que poderia existir e que nada de bom poderá ocorrer. Esta situação o impede de realmente excitar-se e obter uma ereção ou recuperar uma ereção perdida.

Explicações tendenciosas: atribuições negativas; tendência a negativizar, explicar desfavoravelmente as ações de outra pessoa.

A preocupação com a parceria sexual coloca o homem em desvantagem de tal forma que a opinião dela torna-se sempre muito mais importante. Sempre o homem com disfunção eretiva irá justificar que precisa estar pronto para ela para o ato sexual.

Muitas vezes uma mulher, ao presenciar uma falha erétil, chora, pensando não ser desejada ou não ser atraente o suficiente para o parceiro. O homem tendenciosamente pensará que ela está chateada com ele e que foi ele quem causou o choro dela...

Rotulação negativa: decorrente das atribuições tendenciosas; um rótulo decorre de uma ação e torna uma pessoa o adjetivo daquela ação negativa.

Homens com disfunção eretiva geralmente falam de si mesmos negativamente: “Sou meio homem”, “Não sou mais homem”, “sou impotente” Ao rotular-se de forma negativa, o desempenho sexual ficará comprometido, pois ele já sabe que “nunca” conseguirá fazer sexo.

Leitura dos pensamentos: imaginar o que os outros pensam ou ter certeza de suas motivações sem que s outra pessoa tenha lhe comunicado efetivamente.

Essa é uma das formas mais comuns das cognições sexuais masculinas nos brasileiros. O homem ao se considerar \"dono\" do prazer sexual da mulher, imagina que ela deseja fazer sexo com ele tão logo se aproxime dela. Uma situação muito comum tem sido esta: a de que sabe que ela deseja fazer sexo se ele a tocar. Ao ter a certeza de que sabe entra em ansiedade desenvolvendo comportamentos sexuais inibidos: baixa de desejo sexual, dificuldade erétil, incapacidade de manter ereção, ejacular rapidamente...

Raciocínio subjetivo: uma emoção forte acontece, e por conseguinte alguém será responsável por ela; interpretação do mundo através de emoções fortes, mas ligando fatos e idéias de outras pessoas como causadoras destas emoções;

Neste processo podemos perceber que o corpo do homem é personalizado como autor da desgraça sexual. Ao falhar sexualmente, 60% dos homens considera que o corpo tem falhas, é doente e não se responsabiliza pelo ato sexual falho. O responsável é uma veia ou artéria, uma causa bioquímica que o impede de fazer sexo.

Muitos dos 40% restantes, mesmo acreditando que são condições psicológicas que produzem o efeito disfuncional, ainda reputam questões orgânicas que o prejudicam.

Muito comum é responsabilizar o tamanho do pênis como o vilão das dificuldades sexuais e emocionais. Constantemente recebemos cartas de homens desejando aumentar o pênis, pois com um pênis pequeno (geralmente na média ou de 10 a 20% maiores que a média) não buscam sexo. Além do que, “sabem” que não irão agradar à parceira que deseja um pênis maior...

Uma Palavra quase final

Ao observarmos os processos cognitivos distorsivos em homens com queixas sexuais temos um poderoso auxiliar para a aplicação das técnicas comportamentais em uso desde a década de 50. Ao desconsiderarmos estes processos cognitivos, a interpretação distorsiva destes homens com problemas sexuais os conduzirá a abandonar a psicoterapia. A compreensão racional dos processos e técnicas comportamentais da terapia sexual permite menor evasão e a possibilidade de atingirmos o sucesso almejado e necessitado.  

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para saber mais
Beck, A T. (1995): Para além do amor. Rio de Janeiro : Editora Rosa dos Tempos.
Burns, D. (1980): Feeling good. New York : New American Library.
González M., L. (1995): Terapia cognitiva em terapia sexual. In Psicologia e sexualidade. Rio de Janeiro : Editora Medsi.

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