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Sobrevivência racional


Todos os organismos causam mudanças no ambiente em que vivem, mas somente os seres humanos tem o poder de destruir todas as outras formas de vida na Terra e o próprio ambiente do qual depende sua vida. Estão sendo executados planos para alterar as condições climáticas de vastas regiões, para modificar os cursos dos rios, para despejar enormes quantidades de restos venenosos nos oceanos. Ao mesmo tempo, continuam a ocorrer livremente outras ofensas aos ecossistemas: poluição, erosão, a utilização de biocidas e a destruição de florestas tropicais, estuários e outros ecossistemas altamente produtivos, sobre os quais ainda se conhece muito pouco.

No entanto, as pessoas estão começando a compreender que a natureza não é um adversário a ser vencido. O homem é apenas um fio na teia da vida. Um ecólogo escreveu: “o objetivo do homem no jogo com a natureza não é vencer, mas continuar jogando”. A título de esclarecimento apenas, ecólogos são cientistas especialistas no estudo da ecologia ou estudiosos da área, e ecologistas são pessoas em geral que defendem atos preservacionistas sem que sejam necessariamente estudiosos ou entendidos na ciência da ecologia e, muitas vezes, podem ter um cunho ideológico em seus pontos de vista.

Os seres humanos não podem negar a sua dependência da Terra. Mesmo quando os astronautas se aventuram pelo Universo, precisam levar um fragmento do ecossistema terrestre. Suas vidas dependem da água, do ar e do alimento trazidos da Terra. Sempre que tentamos analisar alguma coisa isoladamente, descobrimos que ela está ligada a todo o resto do Universo.

Um exemplo dos efeitos secundários quando se altera os ecossistemas, é o que ocorreu em Bornéu. Em uma campanha de controle de mosquitos, foram espalhadas grandes quantidades de DDT (DicloroDifenil - Tricloroetano). O biocida foi eficiente e matou muitos mosquitos. Entretanto, matou também um grande número de vespas predatórias. As vespas tinham sido até então o controle da população de um certo tipo de lagarta. O número de lagartas aumentou, porque não eram prejudicadas pelo DDT, então os telhados de palha das casas dos nativos começaram a cair porque estavam sendo devorados pelas lagartas.

Os efeitos colaterais continuaram a aparecer, pois o DDT foi também usado dentro das casas para matar moscas. Normalmente, as moscas eram comidas pelos lagartos Geckos, e esses lagartos começaram a morrer por comerem moscas envenenadas. Então os Geckos foram comidos pelos gatos domésticos. Os gatos receberam todo o DDT concentrado nas moscas e nos Geckos. A mortalidade entre os gatos foi tão elevada que os ratos começaram a invadir as casas à procura de comida. Em Bornéu, os ratos muitas vezes são portadores de uma terrível doença, a chamada peste negra. As autoridades ficaram tão alarmadas que providenciaram a descida de pára-quedas na região de uma remessa de gatos, como primeiro passo para restaurar o equilíbrio de um ecossistema que haviam perturbado como o uso do DDT.

Outro exemplo foi no atual Nepal, entre a Índia e a China, na região habitada pelos Rana Tharus e na região denominada Tarai. Durante quatro séculos os Tharus viveram praticamente isolados no sopé do Himalaia, protegidos de outras civilizações pelos mosquitos transmissores da malária. Embora não sejam imunes, os Tharus desenvolveram certa resistência a essa doença letal. No entanto, a civilização moderna chegou e trouxe, nos anos 50, o DDT. A malária foi erradicada, mas com ela também foi a barreira que separava as culturas vizinhas e mundiais.

Assim, mais pelas necessidades externas que internas, os Rana Tharus, sem uma adequação gradativa de adaptação na sociedade moderna, passaram a derrubar excessivamente as árvores e tem hoje uma grande ameaça de extinção de todo seu ecossistema e de sua própria existência como povo.

Essa cadeia de eventos demostra como os seres vivos dependem uns dos outros e como a ignorância do homem sobre ecologia pode trazer problemas para ele mesmo e para outros seres vivos. As pessoas estão aprendendo: quando ofendermos a natureza, devemos estar preparados para uma reação. Para que os seres humanos sobrevivam na Terra, terão sempre que alterar os ecossistemas de modo a satisfazer suas necessidades de alimento e abrigo, entre outras. Mas as ofensas ecológicas podem ser reduzidas a um mínimo: as mudanças devem ser planejadas e executadas com cuidado. Se assim não for feito, advertem os cientistas, os seres humanos poderão destruir o ambiente e suas fontes de vida antes do final do século. Não é de admirar que a ecologia seja chamada de A ciência da sobrevivência.

Há apenas algumas décadas a ecologia não passava de uma espécie de botânica descritiva. Mas, desde então, a ciência progrediu muito.

Atualmente os ecólogos fazem modelos matemáticos de ecossistemas e usam computadores para procurar predizer os efeitos de alterações em ecossistemas reais. Foram inventados aparelhos portáteis que automática e acuradamente medem e registram o fluxo de energia e matéria em um ambiente. Minúsculos transmissores de rádio ou de satélite podem ser colocados em animais selvagens ou no ambiente para monitorar uma série de dados. Os sinais são então recebidos por um computador que registra e já processa as informações que são analisadas de inúmeras formas.

Os ecólogos podem medir a energia que entra anualmente em um grande ecossistema, como um lago por exemplo. Podem descobrir qual a quantidade de energia usada para derreter o gelo, para aquecer a água e alimentar os seres vivos. Hoje já é possível prever quais seriam as conseqüências se várias mudanças fossem introduzidas em um lago.

Os ecólogos sabem, entretanto, que tem um longo caminho a percorrer. Sabem que terão que enfrentar imensos problemas. Já foi dito que a ecologia será a ciência do século vinte e um. Mas desde a algumas décadas os ecólogos precisam ajudar na solução de uma série de problemas ambientais, como impedir que a eutroficação acelere o processo de morte dos lagos, encontrando uma alternativa segura para os biocidas, mantendo a estabilidade dos ecossistemas e projetando cidades mais adequadas à vida dos seres vivos.Esses problemas são difíceis e as soluções envolverão todas as ciências. Não poderemos resolve-los sem o conhecimento profundo do ecossistema terrestre. É bem mais fácil fabricar um telescópio para olhar as estrelas ou construir um foguete para descer em Marte do que compreender a Terra e a vida que nos cerca. E o impacto do homem sobre o ecossistema terrestre tem sido freqüentemente tão destrutivo que se não dedicarmos um pouco mais de atenção ao estudo da teia da natureza, não nos restará muito tempo para construir telescópios ou sonhar com Marte.

Embora a ecologia seja uma ciência, ela pode e deve influir sobre os princípios básicos do homem. É necessária uma reavaliação do lugar do homem na natureza e de sua atitude em relação a ela. Para que o homem sobreviva, é preciso que desenvolva uma consciência ecológica, com compreensão, amor e respeito pelo ecossistema terrestre, do qual ele é apenas uma parte.
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Publicado em: 01/10/2000. Última revisão: 02/05/2018
 COLABORADORES 
Rodrigo Beheregaray Rodrigo Beheregaray - Biólogo Mestre em Biociências PUCRS; fundador do Museu Oceanográfico do Vale do Itajaí (MOVI) na Univ. do Vale do Itajaí (UNIVALI); pesquisador na área de zoologia, atualmente em biologia de peixes; membro da Biopampa Consultoria Ambiental Ltda.
todos artigos publicados

 PARA SABER MAIS 
Ecology, science of survival - Laurence Pringle
National Geographic Magazine - setembro 2000