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Lesões Neurológicas no esporte (Boxe, MMA, Futebol, Hóquei e outros)


Uma das maiores sequelas dos esportes de contato como o Boxe, as lutas de MMA (Artes Marciais Mistas), e outros esportes, parece ser, irremediavelmente, uma lesão que afeta o cérebro ocasionada por pancadas e socos na cabeça.

Esta lesão, cujo nome correto é ENCEFALOPATIA TRAUMÁTICA CRÔNICA (ETC), já era muito conhecida na década de 20 quando ocorriam lutas de rua e em torneios populares de Boxe.
Depois de inúmeros casos de concussões (perda da consciência devido a choque violento na cabeça) a lesão que era conhecida por "demência do pugilista" nome abandonado após descoberta de que ocorria também em esportes como o Rugby e o Futebol americano e até o Hóquei, onde ocorriam muitos choques entre os praticantes, e até mesmo no nosso Futebol.

Estudos realizados no mundo todo e ancorados por especialistas em Medicina do Esporte forneceram argumentos suficientes para sugerir que as lesões causadas por excessivas pancadas na cabeça levavam a uma situação irreversível de danos ao cérebro do atleta e, consequentemente, ao seu estado de saúde geral.

Uma das medidas protetivas para reduzir o risco grave destas lesões como no caso do Boxe e lutas em geral, seria exigir o uso obrigatório de capacetes de proteção.

No futebol temos um exemplo disso com o grande jogador brasileiro da Seleção Brasileira, o mundialmente conhecido zagueiro BELLINI, capitão da Seleção de 1958.
Bellini faleceu em 2014 em função de E.T.C. em função das inúmeras cabeçadas na bola e dos choques com os atacantes adversários nas jogadas aéreas.

Outros atletas famosos que foram vítimas do mesmo mal. Éder Jofre (Boxe); Maguila Rodrigues (Boxe); Muhammad Ali (Boxe)...


Como ocorre a lesão da Encefalopatia Traumática Crônica (E.T.C) ?

A lesão é notada, em média, 16 anos depois que os lutadores param de lutar ou depois que os atletas param suas atividades esportivas. O incrível é que a doença (E.T.C) pode se manifestar meses, anos ou décadas depois do último impacto na cabeça.

E por que esse prazo tão longo ?

Apesar de muito protegido pela caixa craniana, o cérebro não está imune às pancadas em sequência.
A cada choque o órgão chacoalha dentro do crânio e é inevitável que este choque ocorra entre as paredes produza efeitos danosos.
Nesse vaivém, os neurônios sofrem pequenas rupturas, como consequencia disso ocorre a liberação de uma proteína chamada de "Tau".

Em quantidades normais ela é responsável pela boa estrutura dos neurônios.

Com a continuidade de socos e pancadas contínuas, gande parte dessa proteína acaba invadindo e se acumulando no cérebro e têm um efeito de veneno.
A "Tau" é liberada 2 horas após o trauma e fica lá por 3 meses, no mínimo.
Imaginem ao longo de uma carreira de um atleta ou lutador que tenha sofrido diversas vezes pancadas na sua cabeça, quanto tempo ele tem seu cérebro invadido por centenas ou milhares de proteínas Tau? É um mar tóxico de Tau acumulado por muitos anos.


Os efeitos

Os sintomas começam com uma diminuição discreta da memória e da atenção.
Conforme avançam, a amnésia torna-se frequente, bem como a lentidão de pensamento e a dificuldade cognitiva de planejamento e organização para o indivíduo realizar ações concretas, mesmo as mais simples.
Os danos cerebrais atingem o lobo frontal, que é a região responsável pelas funções executivas, planejamento e organização das tarefas humanas.


Os exames

São 5 os exames necessários para o correto diagnóstico da E.T.C.

- Primeiro: Tomografia computadorizada da cabeça (CT): Este exame sofisticado, associado a uma tomografia por emissão de pósitrons (PET-CT), visualiza as áreas do cérebro, temporal e frontal, em atividade e seu metabolismo dinâmico.

- Segundo: Ressonância magnética (MR): Identifica a integridade das fibras nervosas, os axônios e os neurônios.

- Terceiro: O Eletroencefalograma (EEG): exame que mapeia a atividade elétrica do cérebro e serve para acompanhar o grau de evolução das doenças neurológicas.

- Quarto: Exame do Líquor: Avalia os níveis corretos e normais da proteína "Tau" e Beta-amilóides. Este exame é fundamental como exame diferencial para definir doenças neurológicas como Alzheimer, Parkinson e demais doenças neurovegetativas.

- Quinto: Avaliação Neuro-psicológica: Este exame identifica as funções cognitivas prejudicadas por uma doença neurológica;

Apesar de extraordinários recursos tecnológicos de análise do cérebro por imagem, um diagnóstico mais detalhado da E.T.C só poderá ser feito depois de exames anátomo-patológicos a partir da dissecção do cérebro acometido por trauma crônico encefálico.


Informações e notas adicionais e informações gerais:

A demência pugilística, também conhecida por Síndrome Boxer ou Encefalopatia Traumática Crónica (ETC), é uma doença neurodegenerativa progressiva, causada por repetidos golpes na cabeça.
Esta é caracterizada clinicamente por declínio cognitivo, alterações de comportamento, problemas de memória e sinais parkinsonianos do tipo de tremores, falta de coordenação e problemas com a fala.
Pacientes diagnosticados com esta enfermidade também estão propensos a irritabilidade.

Em 1928, o médico americano Harrison Martland descreveu pela primeira vez sintomas como perda de memória, mudanças de personalidade e alterações motoras semelhantes à doença de Parkinson em ex-boxeadores. Ele, então, batizou a doença de demência pugilística. Noventa por cento de todos os casos registrados desde então foram observados em atletas.

Pensa-se que esta enfermidade afeta mais de 15% de lutadores profissionais de desportos de combate, tais como pugilismo, muay thai, kickboxing e MMA.
Até 2002, a doença era conhecida apenas por demência pugilística, pois havia sido detectada somente em lutadores.
Neste ano, nos Estados Unidos, foi descrito o primeiro caso da doença em um jogador da liga de Futebol Americano. Então, a partir desse caso, a doença passou a se chamar Encefalopatia Traumática Crônica (ETC).
Para se ter uma ideia, um exame neuropatológico descobriu que a causa mortis de Bellini, capitão da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1958, foi a ETC.

Esta doença pode vir a manifestar-se ao fim de 12 a 16 anos das sequelas e tem caráter progressivo, no entanto, não existe uma regra, já que alguns ex-atletas têm menos propensão a desenvolver este mal.
A doença ficou muito conhecida com Muhammad Ali. que desenvolveu a parte parkinsoniana.


As proteínas tau são proteínas que estabilizam os microtúbulos. São abundantes nos neurônios do sistema nervoso central e menos comuns noutros locais.
Quando as proteínas tau possuem defeitos, não estabilizando bem os microtúbulos, pode levar ao aparecimento de estados de demência, como a doença de Alzheimer.

A presença da proteína Aβ (Beta-amilóide) também leva os neurónios a hiperfosforilar a proteína tau de ligação do microtúbulo. Com este nível aumentado de fosforilação, a tau se redistribui no interior do neurónio do axónio para os dendritos e para o corpo celular e se agrega em aglomerados.

Este processo também resulta em disfunção neuronal e morte celular. Levando a doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e Parkinson.

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Publicado em: 20/02/2017. Última revisão: 18/04/2019
 COLABORADORES 
Newton Bittencourt dos Santos Newton Bittencourt dos Santos é graduado em Educação Física e especialista em Medicina e Ciências do Esporte pela UFRGS - Porto Alegre. Filiado à IAAF (Federação Internacional de Atletismo Amador).
todos artigos publicados

 PARA SABER MAIS 
Neurosonology and Neuroimaging of Stroke<br />
International Journal of Sports Medicine, 2016
"Cloning and sequencing of the cDNA encoding a core protein of the paired helical filament of Alzheimer disease: identification as the microtubule-associated protein tau" American Journal of Sport Medicine, 2016